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O Desabafo

 

 

Eu sou a mulher que ninguém considera Mulher, pelo facto de usar o meu corpo como instrumento de trabalho. Na verdade, julgam-me pelo facto de ter a coragem de assumir o meu trabalho, pois muitas são, mas não assumem para si mesmas; acham que o Iphone, as roupas de marca, os carros, os hotéis de luxo e as viagens ao exterior cobrem o fardo da profissão, mas na verdade não temos diferença alguma, somos todas prostitutas, por que vendemos os nossos princípios por valores monetários.

A minha vida nunca foi fácil. Quando era mais nova, acompanhava o meu pai para vender peixe no mercado da zona, enquanto os meus irmãos mais novos iam para a rua vender amendoim torrado. No final do dia, tínhamos muito pouco para comer, mas o meu pai fazia de tudo para nos alimentar.

O tempo foi passando e eu crescia, a menina estava a desenvolver características de mulher.

Estudei até a 5ª classe; tive de parar com os estudos por que o meu pai não conseguia mais pagar todas as contas de casa. Por isso tive de trabalhar no mercado da zona dos 13 aos 18 anos de idade, vendendo tomate. A renda era muito baixa, mas dava para sustentar a minha família.

Certo dia, após um longo dia de trabalho, voltava para casa por volta das 21 horas, e enquanto caminhava pelos estreitos becos do bairro Maxaquene – tive a impressão de estar a ser seguida por um homem, mas continuei a andar por que havia mais pessoas a caminhar.

Quando me aproximava ao desvio que dava a minha casa, senti uma mão pesada nas minhas costas me puxando para trás, e por instinto gritei de susto e vi um homem com a aparência de 40 anos me pressionando contra a parede, tentando desmanchar o nó que segurava a minha capulana, eu tentei lutar mas ele era muito forte e só me restava gritar – gritei, gritei mas a a rua estava deserta naquele momento e os moradores não saiam de suas casas, por um momento achei que seria violentada, mas por sorte, um jovem passava dali e gritei por socorro e ele veio me acudir, pegou numa varra que apanhou no chão e bateu o senhor, os dois se agarraram e lutaram mas o senhor perdeu forças e fugiu.

Eu estava apavorada e a chorar, o jovem se recompôs e veio ter comigo perguntando “moça estás bem?” , eu respondi que estava bem, com a voz trémula.

Ele me acompanhou até o portão de casa, agradeci e perguntei qual era o seu nome, “Domingos, o meu nome é Domingos” (ele tinha o rosto angelical e feições suaves); – o meu é Sílvia, disse-lhe. “Devias ter muito cuidado ao andar de noite, este bairro é muito perigoso”, disse o Domingos. – “assim será”, respondi. . Pedi que deixasse o seu contacto, “842300(..)” ditou-me.

No dia seguinte, mandei uma mensagem a cumprimentar e ele respondeu, ficamos amigos e depois de 3 meses começamos a namorar.

O relacionamento ia tão bem que decidimos formalizar com as nossas famílias e assim o fizemos. Um tempo depois, começamos a viver juntos, e descobri que estava grávida.

Tinha apenas 19 anos, e vendia no mercado. Continuei a trabalhar até aos 7 meses de gestação, à partir daí parei de trabalhar, apenas o Domingos trabalhava como carpinteiro.

A nossa primeira sorte nasceu, uma linda menina de pele escurinha, a minha Raci.

Após a gravidez, virei uma simples dona de casa, o meu relacionamento não era mais o mesmo, o meu marido andava diferente e não me dava atenção.

Passaram-se dois anos e estava eu grávida mais uma vez, mas desta vez de um lindo menino, o Kito.

As coisas em casa tendiam a piorar, descobri que o Domingos tinha várias amantes e quando fui confrontar ele deu-me uma bofetada. Não acreditei naquilo, o homem que um dia me salvou de uma violação acabava de se tornar o meu agressor, chorei e chorei de desgosto. Ele se ajoelhou e pediu desculpa, eu olhei para ele e disse que estava tudo bem.

Um outro dia, ele volta bêbado e a gritar, eu disse que as crianças estavam assustadas e a chorar por causa disso, ele gritou comigo e bateu-me novamente, mas desta vez não foi apenas uma bofetada – ele espancou-me, e quase partiu-me o braço segundo a enfermeira que me atendeu. Não prestei queixa e saí do hospital para casa da minha irmã mais nova. Ela estava a cuidar das crianças e continuamos a viver lá.

Eu era uma mulher separada e sem emprego, tinha duas crianças por sustentar e não sabia como fazer.

Passado algum tempo, recebi a visita de uma amiga que disse que tinha um local para me levar e que este provavelmente mudaria a situação em que eu estava. Eu, inocente e esperançosa –  fui com ela, eram 18 horas e estávamos na baixa da cidade, numa rua onde mulheres estavam perfiladas como se de mercadoria se tratassem, todas de mini-roupa fazendo gestos obscenos para chamar atenção; De repente, vi a minha amiga Zita a mudar de roupa na rua e fazendo sinal para que eu fizesse o mesmo… claro que me recusei, mas enquanto me preparava para começar uma discussão com a Zita, um carro daqueles que só havia visto na televisão, encostou e mostrou interesse em me ter – disse que para o efeito estava disposto a pagar mil meticais. “Como tens sorte, Sílvia. Logo mil meticais na tua primeira vez!!” exclamou a Zita.

Eu pensei nas minhas crianças com fome e sem hesitar, entrei no carro; foram os piores 15 minutos da minha vida. Vendi o meu corpo feito um produto de consumo imediato, o carro era confortável mas a situação não era, o senhor me deu de todos os lados e fiquei enojada de mim mesma, mas aquele pagamento me deixou aliviada por que os meus filhos teriam algo para comer no dia seguinte.

Voltei para a Baixa dois dias depois, já preparada para o trabalho. Tive dois clientes naquela noite, peguei no valor e guardei-o. E o tempo foi passando e eu continuava a trabalhar-como prostituta na baixa, só a minha irmã sabia que tipo de trabalho eu fazia e ela apoiava por que aquele era o nosso sustento.

Sempre que saía, colocava na minha mente que era tudo pelo bem-estar das minhas crianças, que precisam de se alimentar e estudar. Dizem que heróis morrem pelos seus, mas de que adianta morrer por alguém por quem nunca vivemos? Eu vivo pelos meus filhos e trabalho duro a cada dia vendendo o meu corpo, sou organizada e tenho minhas regras, sempre faço os programas com preservativo, não faço sexo oral e não dou beijo na boca. - Nunca se sabe que doenças esses clientes têm.

E assim vai a minha vida – uma vez, umas moças estudantes vieram pedir para fazer uma entrevista connosco, eu e a minha amiga aceitamos. Foi muito bom ter falado do nosso trabalho para elas, me senti compreendida e valorizada, muitos julgam sem saber as as causas. Uma delas perguntou-me se já havia considerado deixar essa profissão, eu disse que sim, que deixaria pois só vim parar cá por causa da violência que sofri, e que por não ter estudado fica complicado para mim ter um emprego. Mas que se pudesse trabalhar num local normal e ganhar 5 mil meticais no mínimo por mês largaria esta vida, eu só quero poder sustentar os meus filhos.

Eles não sabem que sou prostituta, decidi poupá-los disso pois já basta a minha dor.

Espero que um dia consiga ter a minha dignidade de volta, enquanto isso continuarei sendo a mulher da noite, invisível à luz do dia.

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14 comentários em “O Desabafo”

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