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A Cruz do David

 

Desde criança me perguntavam o que queria ser quando crescesse, e eu tão inocente respondia : “eu quando crescer quero ser cantor” ,  e  as outras crianças respondiam que queriam ser médicos , professores,arquitectos,pilotos,advogados. E agora penso que talvez tinha de ter tido um sonho comum como das outras crianças, por que ser artista não é considerada uma profissão e a pressão da sociedade mata a minha arte dia após dia.

Me formei em Engenharia Civil por que não me foi permitido fazer faculdade de música ( que durante a infância e adolescência era a minha actividade favorita), meu pai sempre disse que sonhos não pagam contas e que deveria estudar algo real. Por obediência seguí engenharia civil, que destruio o meu sonho( engraçado não ? ao invés de construir destruio). Foram os 4 anos mais longos da minha vida, fiz o curso em tempo recorde por que não cogitava a idéia de permanecer mais um ano a fazer o curso. Então, o bom menino graduou para o orgulho dos pais. Após a graduação a saga continua, tinha de fazer Currículuns para concorrer as vagas de emprego, por que como o meu pai sempre falava “sonhos não pagam contas” e lá fui eu deixar os currículuns de empresa para empresa. Diferentemente de outros jovens formados, meu entusiasmo era baixo ou melhor dizendo não existia. Eu era apenas uma máquina ambulante.

Mas num desses dias fui chamado à uma entrevista, que me correu bem, fiz os testes necessários e fui aprovado que para alegria dos meus pais eu já não era uma despesa, eu era um jovem que já podia pagar as contas.

Comecei a trabalhar com assistente do Engenheiro sénior, apesar de não gostar do trabalho me dedicava e dava o melhor de mim, meu tempo deveria valer para alguma coisa.

Graduação feita, emprego feito,  agora faltam esposa e filhos disseram os meus pais. Aí já era demais era tanta pressão, eu ouvia isso não só dos meus pais mas também de toda família e amigos. Será que nascemos para estudar, trabalhar,pagar contas e morrer? Morrer, morrer, morrer ( Essa palavra ultimamente andava rondando a minha cabeça, por que a vida não fazia sentido algum, tinha uma lógica irracional).

Passaram-se dois anos, por fora eu parecia bem mas dentro de mim estava um caos pois eu não via algum sentido na vida, toda minha vida foi ditada por aspirações das outras pessoas, eu morria cada vez que minha arte era banalizada, eu morria cada vez que me pressionassem a estudar algo que não gostava, eu morria cada vez que perguntassem sobre o meu próximo passo com uma pergunta retórica “Graduação feita, emprego feito,  agora faltam esposa e filhos” , por quê ninguém perguntava como eu me sentia? Por quê ninguém perguntava se eu estava feliz ou se precisava de conversar? Se a vida me corria bem e precisava de ajuda? Por quê minha arte nunca foi valorizada como o meu canudo? Essas questões me atormentavam cada vez mais, não aguentava mais. Meu salário era muito bom, mas não paga a vida do meu sonho.

Me perdoem, eu David Cruz ( por ironia do destino carreguei a minha cruz e fui crucificado ) , mas desta vez fui o meu próprio Judas por que não tive coragem de lutar pelos meus sonhos. Neste momento que vocês leem esta carta, eu me encontro num lugar melhor, eu já estava morto só consumei o facto. Sentirei saudades e não chorem por mim pela primeira vez fiz algo por vontade própria.Adeus

Naquele momento ,o pai do David lia a carta chorando no dia do velório do filho, inconsolável sempre que lhe vinha a mente a imagem do suicídio do David, seu zelo em garantir um futuro melhor e aceitável resultaram em desgraça.Viveu o pesadelo do sonho para o resto de sua vida com o seu filho morto.

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4 comentários em “A Cruz do David”

    1. Muito obrigada por ter lido. Desta vez decidí usar o género literário tragédia para abordar o tema, por isso o desfecho foi aquele. Aí cabe ao leitor tirar lições que apesar dos pais e sociedade colocarem pressão sobre nós , ainda assim temos poder de escolha. O David estava com depressão profunda e não teve ajuda. Teu comentário me deu ideia de escrever uma versão de superação. Thanks 🙂 Abraços de luz

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